Novo estudo: “Novos usos, novos riscos? Direitos digitais de crianças e jovens”
Este relatório da equipa EU Kids Online Portugal apresenta os resultados nacionais do inquérito europeu realizado em 2025. Caracteriza a amostra representativa de 2111 crianças e jovens de 9 a 17 anos, e analisa os seus acessos, usos, competências, perspetiva de direitos digitais, apreciação sobre segurança e riscos na internet e mediações, da família, escola e pares, associando breves sínteses qualitativas sobre cada uma das dimensões.
A amostra é equilibrada em termos de género, cerca de metade tem entre 12 e 14 anos e mais de 60% reporta um estatuto socioeconómico alto.

- Bem-estar geral: Cerca de dois terços expressam confiança e bem-estar geral. Nos restantes, destacam-se dificuldades de concentração: 44% nos 15-17 anos; 51% no estatuto socioeconómico baixo.
- Atividades gerais: O contacto presencial diário com amigos (87%) supera o online (57%). Continuam as divisões de género: mais desporto e atividades de ar livre (rapazes); mais ajuda em tarefas domésticas e no estudo (raparigas).
- Meios de acesso: Sem diferenças de género, o uso diário do smartphone é de 71% aos 9-11 anos e atinge 9 em cada 10 a partir dos 12 anos. Computadores, consolas e tablets são mais usados no meio social baixo, onde, comparativamente, se usa menos o smartphone diariamente.
- Perceções de uso excessivo: Usar sem propósito (23%) e não conseguir reduzir o tempo online (19%) são os casos mais mencionados. Todos são mais elevados nos 15-17 anos e no ESE baixo.
- Atividades online: as mais frequentes continuam a ser comunicação com amigos e ver vídeos em redes sociais (79%), ouvir música (72%) e comunicação com pais/cuidadores (68%), seguindo-se um leque de outras atividades.
- Perfil em redes sociais: aumenta com a idade: 38% dos 9-11 anos, 75% dos 12-14 anos e 91% dos 15-17 anos. Os rapazes estão agora mais presentes nas redes do que em estudos anteriores. No contexto socioeconómico baixo, ocorrem mais partilha pública de informação e comunicação com desconhecidos.
- IA Generativa: 85% usam ferramentas de IA, sobretudo para trabalhos escolares (45-47%). Esse tipo de uso fica-se pelos 34% no meio social baixo.
- Literacia digital: A autoavaliação positiva de competências comunicativas, operacionais, criativas e informacionais aumenta com a idade; as raparigas lideram apenas em comunicação. Em todas, as médias mais baixas estão no ESE baixo.
- A confiança em competências digitais contrasta com o desconhecimento sobre o funcionamento dos algoritmos, modelos de negócio nas redes sociais, e o impacto social das tecnologias digitais, aferidas com perguntas de conhecimento.
- Direitos digitais: A perceção dos direitos é mais elevada entre os mais novos e as raparigas. Poder comunicar com quem se deseja é o direito que mais concordam estar assegurado.
- Futuro digital: Considerações sobre oportunidades (acesso a conhecimento, inclusão e justiça social) vão a par de preocupações (com a perda de controlo, conteúdos falsos, impactos ambientais, dependência, entre outros).
- Preocupações com a partilha de dados pessoais sem consentimento decrescem com a idade; há também menor preocupação com uso dos seus dados pessoais por terceiros (governo, empresas) no meio social baixo.
- Segurança: Menos de metade (47%) sentem-se seguros online. A perceção de segurança varia pouco com a idade, decresce com o meio social e é mais expressa por rapazes.
- Danos: 38% referem ter tido pelo menos uma situação que os incomodou.
- Experiências negativas ocorrem mais frequentemente entre os mais velhos e no estatuto socioeconómico baixo. A procura de apoio após experiências negativas online é feita junto dos pais (37%) e dos amigos da mesma idade (36%). Não falar com ninguém é referido por 15%.
- Discurso de ódio: metade já se confrontou com este conteúdo, com crescimento exponencial por idade, de um quarto nos 9-11 a 72% nos 15-17. Maior impacto emocional em raparigas e mais jovens.
- Exposição a outros conteúdos negativos (11-17): Mais de um terço (37%) assinalam “teorias da conspiração” e 31% assinalam sugestões de automutilação. Pornografia de adultos, outras práticas corporais danosas e imagens nojentas e violentas estão entre 22% e 29%.
- Bullying cara a cara (25%) foi mais referido do que online (13%). Aparência física, comportamento, opiniões e crenças são as principais razões a que atribuem essas atitudes.
- Monitorização parental: O uso de tecnologias de geolocalização (43%) e de controlo parental (cerca de 30%) são as formas mais referidas pelos filhos. Esta desce drasticamente com a idade e varia pouco por género.
- Na escola: Cerca de um terço refere mediações dos professores. O reforço na orientação para a segurança na internet (47%) e a regulação (43%) das práticas digitais são as mais referidas.
- Opinião sobre proibição de telemóveis na escola: Três em quatro discordam da atual regulação do telemóvel, esteja ou não a ser aplicada na sua escola, uma situação que merece a concordância de 60% dos 9-11 anos.
De forma geral:
- Tendências e diferenças estruturais na sociedade expressam-se no espaço online. A par da idade e das diferenças de género, a condição social, em particular, revela diferenças significativas nas práticas, oportunidades e preocupações associadas ao uso da internet.
- Em relação a estudos anteriores, aponta-se a estabilidade de uma cultura de comunicação e lazer. O aparecimento da IA Generativa vem, contudo, destacar um maior uso para efeitos escolares e apoio emocional.
- A crescente plataformização e interconexão entre atividades (comunicação com pares, lazer, estudo) desafia um olhar meramente quantitativo sobre tempos online.
- Acentuaram-se sinais de desconforto, tanto decorrentes de uma intensificação dos mecanismos algorítmicos de retenção da atenção por parte das plataformas, como do crescimento de conteúdos negativos gerados por utilizadores, com destaque para ‘teorias da conspiração’. Ainda é prevalente a exposição não-consensual a conteúdos que criam desconforto em jovens.
- À persistência de riscos clássicos juntam-se novos riscos cognitivos e informacionais e um maior peso da exposição acidental.
- Tendo presente que são as perceções dos filhos, ambientes positivos de comunicação e entreajuda familiar continuam a ser as formas de mediação mais referidas. Ao mesmo tempo, cresceu a monitorização tecnológica por parte dos pais, num contexto mais amplo de intensificação das práticas de vigilância digital, que coloca novos desafios aos direitos à privacidade e à autonomia das crianças e dos jovens.
- As tecnologias digitais, incluindo ferramentas mais recentes amplamente utilizadas, como a IA Generativa, não existem à margem da sociedade: refletem e por vezes amplificam tensões e relações de poder que se estendem muito para além do online.
- Os resultados reforçam a necessidade de políticas e estratégias que ultrapassem uma lógica centrada apenas na proteção e contribuam também para garantir outros direitos das crianças e jovens nos ambientes digitais.
Leia o relatório completo: Novos usos, novos riscos? Direitos digitais de crianças e jovens
Como citar:
Batista, S., Ponte, C., Ferreira, E., Cardoso, D., Simões, J.A., & Luna, E. (2026). EU Kids Online Portugal. Novos usos, novos riscos? Direitos digitais de crianças e jovens. https://doi.org/10.5281/zenodo.22130477
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![]() | Batista, S., Ponte, C., Ferreira, E., Cardoso, D., de Vasconcelos Simões, J. A., & Luna Muñoz, E. (2026). Eu Kids Online Portugal. Novos usos, novos riscos? Direitos digitais de crianças e jovens. Zenodo. https://doi.org/10.5281/zenodo.22130477 |
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![]() | Smahel, D., Machackova, H., Mascheroni, G., Dedkova, L., Staksrud, E., Ólafsson, K., Livingstone, S., and Hasebrink, U. (2020). EU Kids Online 2020: Survey results from 19 countries. EU Kids Online. Doi: 10.21953/lse.47fdeqj01ofo |
![]() | Nós na rede Este livro analisa as respostas de crianças e jovens portugueses (9-17 anos) sobre práticas digitais, recolhidas no inquérito europeu EU Kids Online, de 2019. Os resultados revelam diferenças por idade e género quanto aos seus interesses na rede, oportunidades e riscos, competências na internet e mediação familiar. A comparação internacional, a atenção a contextos do país e contributos de estudos alargam o horizonte para ler as respostas de quem nasceu em tempos digitais, mas não nasceu digital. Disponível na Wook: https://www.wook.pt/livro/nos-na-rede-cristina-ponte/24525878 |
![]() | Relatório final EU Kids Online PortugalPonte, C. & Batista, S. (2019). EU Kids Online Portugal. Usos, competências, riscos e mediações da internet reportados por crianças e jovens (9-17 anos). EU Kids Online e NOVA FCSH. |
![]() | CRESCENDO ENTRE ECRÃSPrimeiro estudo nacional sobre como crianças fazem usos de meios digitais realizado pela equipa EU Kids Online Portugal para a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). (Fev. 2017) |
| | Resultados comparados entre o Brasil e sete países europeus, incluindo Portugal (Jul. 2015) |
| | Net Children Go MobileRelatório Crianças e Meios Digitais Móveis em Portugal: Resultados Nacionais (Nov. 2014) |
![]() | Livro Crianças e Internet em Portugal, com organização de Cristina Ponte, Ana Jorge, José Alberto Simões e Daniel S. Cardoso (Fev. 2012) |













